Por que as stablecoins vão zerar a indústria global de transferência de dinheiro

Por
Teymour Farman-Farmaian

Publicado originalmente em Yellow.com

As stablecoins tornam os pagamentos internacionais gratuitos

A economia da indústria de remessas sempre se baseou em uma única ideia: cobrar um pedágio toda vez que o dinheiro cruza a fronteira entre duas moedas ou dois países. Cada banco correspondente na cadeia adiciona um atraso e fica com uma parte, e o cliente paga por tudo isso.

As stablecoins eliminam essa cadeia. Um token denominado em dólares é liquidado em uma blockchain pública em segundos, 24 horas por dia, por uma fração de centavo. Não há cadeia de bancos correspondentes, nem espera de vários dias, nem dependência de redes legadas como a SWIFT. A liquidação é atômica: o ativo e o pagamento se movem no mesmo instante, o que elimina o risco de crédito embutido nas transferências tradicionais.

Quando o custo marginal de movimentar um dólar se aproxima de zero, o mesmo acontece com o preço que o mercado vai tolerar. O Banco Mundial ainda estima o custo médio global de enviar dinheiro em cerca de 6 por cento. Esse número já não é uma taxa. É uma meta. Em breve, cobrar para movimentar dinheiro vai soar tão estranho quanto cobrar para enviar um e-mail.

Os intermediários que só movimentam dinheiro vão a zero

Existem dois tipos de empresas nesse mercado. A primeira vende um produto genuíno: uma conta, um cartão, uma linha de crédito, um lugar para guardar e fazer o dinheiro crescer. A segunda vende apenas movimentação: existe unicamente para transferir fundos de um lado da fronteira para o outro e cobrar pela viagem.

Esse segundo grupo não tem mais nada para vender quando a movimentação se torna gratuita. As empresas de transferência de dinheiro, os bancos correspondentes e as mesas de câmbio tradicionais construíram suas margens em cima do atrito. Ao remover o atrito, a margem desaparece junto. Isso não é uma compressão de taxas. É um colapso de categoria: a taxa não diminui, ela vai a zero.

O valor migra para os emissores e as plataformas de distribuição

O valor não desaparece. Ele migra para dois lugares que se tornam os pilares da nova indústria.

  1. O primeiro pilar são os emissores, as entidades que cunham as stablecoins e mantêm as reservas que as sustentam. Eles ganham com o rendimento gerado por essas reservas, não com o ato de movimentar um único pagamento. 
  2. O segundo pilar são as plataformas de distribuição, as contas e aplicativos onde as pessoas realmente vivem financeiramente: onde recebem, poupam, gastam e pedem emprestado. Essas plataformas monetizam um relacionamento, não uma transação.

A internet seguiu o mesmo caminho: distribuir conteúdo se tornou essencialmente gratuito, e o valor migrou para as plataformas donas da audiência e da infraestrutura por trás dela. O dinheiro é o próximo.

A nova estrutura de receita: cartões, crédito, rendimento e dados

Se movimentar dinheiro não gera mais receita, o que gera? Tudo o que uma pessoa faz com o dinheiro depois que ele chega. O valor que antes ficava preso nas taxas de transferência ressurge em uma série de serviços reais:

  • Cartões: geram receita de intercâmbio quando os usuários gastam, em vez de quando enviam.
  • Crédito e empréstimos: se tornam possíveis para milhões de pessoas com renda em dólares comprovável que antes eram invisíveis para os bancos.
  • Poupança de alto rendimento: transformam um saldo estável em uma fonte de retorno tanto para o usuário quanto para a plataforma.
  • Dados: informações sobre oferta global de talentos e tendências de contratação geram receita de alta margem por meio de insights de mercado premium e ferramentas de benchmarking corporativo.

A lógica é a mesma que as empresas de plataforma aprenderam há muito tempo. A Amazon não construiu um império vendendo um livro com margem; o marketplace foi a porta de entrada para tudo o mais. A Amazon ganha dinheiro com anúncios, conteúdo (Prime) e infraestrutura (AWS, atendendo grandes empresas). As empresas de pagamento vencedoras vão tratar a transferência da mesma forma: como a porta de entrada para uma vida financeira, e não como o produto em si.

Quem vence a próxima década

Os beneficiários mais claros são os bilhões de pessoas em mercados emergentes que sempre pagaram o imposto mais alto pela distância. Um freelancer em Manila, o dono de uma agência em São Paulo ou um desenvolvedor em Lagos fica com os 6 por cento que antes evaporavam no caminho de volta para casa. O dinheiro passa a se mover tão livremente quanto a informação já se move, e a competição se desloca para o que realmente importa aos usuários: a melhor conta, o melhor rendimento, o crédito mais justo e as ferramentas mais úteis.

O modelo de taxa de transferência e taxa cambial oculta está morrendo, e o mercado já começou a precificar isso. Por exemplo, a Payoneer acabou de ser vendida por um múltiplo de 2x a receita.  

Em três anos, pagar para enviar dinheiro através de uma fronteira vai soar tão arcaico quanto pagar por minuto em uma ligação interurbana.  No máximo, o cliente vai pagar alguns centavos de taxa cambial, e só. 

A indústria não está encolhendo: está sendo reconstruída de baixo para cima.

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